São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Artigo I — Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra

Capítulo II

1 e 2. Explicação breve e o significado de "Crer"

[1] Explica-se brevemente o primeiro artigo. Nestas palavras está sujeita a seguinte sentença: Creio com certeza, e sem qualquer dúvida professo a Deus Pai, a saber, a primeira Pessoa da Trindade, que, por sua onipotente virtude, fundou do nada o próprio céu, a terra e todas as coisas que estão contidas no âmbito do céu e da terra1, e, uma vez fundadas, as protege e rege... Mas, visto que grandes mistérios se ocultam em quase cada uma de suas palavras, devem agora ser ponderadas com mais diligência pelo Pároco.

[2] O que significa a palavra Crer. Portanto, a palavra Crer não significa, neste lugar, pensar, estimar ou opinar: mas, como ensinam as Sagradas Escrituras, tem a força de um assentimento certíssimo, pelo qual a mente assente firme e constantemente a Deus que revela os seus mistérios. Por isso, crê aquele a quem algo lhe é certo e persuadido sem qualquer hesitação. Pois Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, Ele mesmo brilhou em nossos corações2, para que o Evangelho não nos seja oculto.3


Notas Marginais: As singulares palavras do Símbolo devem ser expostas diligentemente. A acepção e profissão desta palavra, Creio, em matéria de fé Evangélica.

1) Gn 1, 1 ss; Hb 11, 3; Sl 32, 6; At 14, 14 e 17, 24.
2) 2Cor 4, 6.
3) 2Cor 4, 3.

3 e 4. A Simplicidade do Assentimento e a Necessidade da Profissão

[3] O que é proposto no Símbolo não deve ser perscrutado curiosamente, mas assentido com simplicidade. Já das coisas que foram ditas, segue-se que ele, que é dotado desse conhecimento celeste da fé, seja livre da curiosidade de investigar. Pois Deus... preceituou uma fé imutável, a qual faz com que o ânimo repouse na notícia da verdade eterna. Quando o Apóstolo testifica: Deus é veraz4, mas todo homem é mentiroso5, se é de um homem arrogante exigir que um homem grave e sábio prove o que disse; de quanta temeridade seria exigir as razões da doutrina salutar a Deus?

[4] Não basta crer para a salvação, mas é necessário também professar a fé. Ensine o Pároco que aquele que diz: Creio, além de declarar o íntimo assentimento de sua mente (ato interior), deve manifestar pela profissão aberta o que tem incluso no ânimo. Pois convém que os fiéis tenham aquele espírito: “Cri, por isso falei”6, que imitem os Apóstolos: “Não podemos não falar as coisas que vimos e ouvimos”7, e sejam excitados por São Paulo: “Não me envergonho do Evangelho”8. Pois: “Com o coração se crê para a justiça, com a boca, porém, se faz a confissão para a salvação”9.


Notas Marginais: A fé não tolera ambiguidade, nem requer demonstração. O ato interior da fé deve ser declarado pela voz.

4) Rm 3, 4.
5) Sl 115, 11.
6) Sl 115, 10.
7) At 4, 20.
8) Rm 1, 16.
9) Rm 10, 10.

5 e 6. A Excelência da Sabedoria Cristã e da Filosofia

[5] Em Deus. Daqui já devemos a dignidade e a excelência da sabedoria cristã... e quanto seja lícito conhecer da bondade divina àqueles a quem nos foi dado ascender à cognição da coisa mais prestante como que pelos degraus da fé.

[6] O quanto a sabedoria cristã difere da notícia filosófica. Nisto, pois, diferem muito entre si a filosofia cristã e a sabedoria deste século: que esta, guiada apenas pela luz natural a partir dos efeitos... a custo por fim contempla as coisas invisíveis de Deus10: ao passo que a outra aguça a perspicácia da mente humana de tal modo que pode penetrar no céu sem nenhum labor e intuir a própria fonte eterna de luz11... e exultemos com alegria inenarrável.12

Retamente os fiéis professam crer em Deus, cuja majestade... dizemos ser incompreensível13. Pois a luz, Ele habita inacessível.14 Pois para que a nossa mente chegue a Deus, é necessário que ela seja inteiramente abstraída dos sentidos. Mas... não se deixou, contudo, Deus sem testemunho, fazendo o bem do céu.15 Por essa causa, para os Filósofos nada foi abjeto ao sentir de Deus... e atribuíram a ele a perfeita força e cópia de todos os bens.

Isso, de longe, consta melhor e mais ilustremente das divinas letras: Deus é espírito16; Sede vós perfeitos17; Ó altíssima profundeza18; Deus é veraz19; Eu sou o caminho...20 Grandes e preclaras são essas coisas... ainda que também nisso conhecemos a necessidade da doutrina [celestial]. Muito antes do que o mesmo Apóstolo21, o Profeta Isaías mostrou: “Desde o século não ouviram... o olho não viu, ó Deus, senão tu, as coisas que preparas”22.


10) Rm 1, 20.
11) 1Pd 2, 9.
12) 1Pd 1, 8.
13) Jr 32, 17.
14) 1Tm 6, 16.
15) At 14, 16.
16) Jo 4, 24.
17) Mt 5, 48.
18) Rm 11, 33.
19) Rm 3, 4.
20) Jo 14, 6.
21) 1Cor 2, 9.
22) Is 64, 4.

7 e 8. O Único Deus

[7] Deve-se confessar que Deus é Um só. A partir das coisas que dissemos, deve-se confessar que há um só Deus, não muitos Deuses. Pois, quando atribuímos a Deus a suma bondade e perfeição; não pode acontecer que aquilo que é sumo e absolutíssimo, se encontre em muitos. Isto é comprovado nas sagradas letras: “Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus, Deus é um só”23. E o Apóstolo manifestamente atesta: “Um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo”24.

[8] O nome de Deus às vezes é atribuído às naturezas criadas, mas impropriamente. O fato de que chamaram de Deuses aos Profetas e Juízes25 não foi feito ao modo dos gentios, mas quiseram significar alguma virtude excelente. A Deus, portanto, a fé cristã o crê e professa como um só, do modo como foi dito no Símbolo do Concílio de Niceia26: de tal modo o intelige como um, que venera a Unidade na Trindade, e a Trindade na Unidade27.


23) Dt 6, 4.
24) Ef 4, 5.
25) Ex 7, 1 e 22, 9; Sl 81, 6; Jo 10, 35.
26) Símbolo de Niceia.
27) Atanásio no Símbolo.

9 e 10. Deus é Pai. A Distinção das Pessoas

[9] Deus é dito Pai por razão geral de todos os homens, e, por peculiar, dos cristãos. Segue, pois, no Símbolo: Pai... Da semelhança, pois, induzida das coisas humanas... foi feito que quisessem que fosse chamado de Pai o Deus a quem reconheciam como opífice e retor de todas as coisas. Lemos: “Acaso não é Ele próprio o teu Pai, que te possuiu, e te fez, e te criou?”28 Porém, com um nome muito mais frequente, Deus é dito Pai dos cristãos, que receberam o espírito de adoção dos filhos de Deus, no qual clamam: Abba, Pai29. Seja pela comum criação, seja pela peculiar causa da adoção espiritual, com mérito os fiéis professam crer em Deus Pai.

[10] Dos mistérios que devem ser coligidos desta voz de Pai; e da distinção das Pessoas. O Pároco ensinará que a mente deve ser erigida para mistérios mais altos... Indica, porém, este nome que, em uma só essência da divindade, não se deve crer em apenas uma Pessoa, mas na distinção de Pessoas. Pois três são as Pessoas: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo... Contudo, o Pai é na substância a primeira Pessoa. Ora, destas três Pessoas, visto que é nefasto cogitar qualquer coisa de dissemelhante; são inteligidas como distintas tão-somente por suas propriedades.

Pois o Pai é ingênito; o Filho é gerado pelo Pai; o Espírito Santo procede de ambos. E de tal modo confessamos a mesma essência... Mas o fato de dizermos que o Pai é a primeira Pessoa, não se deve cogitar que algo na Trindade é anterior ou posterior. Afirmamos ser o Pai a primeira Pessoa por causa de que ele mesmo é o princípio sem princípio. Saibam os fiéis que essa unidade está na essência, e a distinção, porém, nas Pessoas. Pois: “Três são os que dão testemunho no céu, o Pai, o Verbo, e o Espírito Santo, e estes três são um”30.


28) Dt 32, 6.
29) Rm 8, 15.
30) 1Jo 5, 7.

11 a 14. O Significado de Onipotente

[11] O que intelijamos aqui sob o Nome de Onipotente. As sagradas letras costumam explicar a suma força de Deus por muitos nomes... Ele mesmo diz de si: “Eu sou o Senhor onipotente”31. Intelijamos, porém, por este nome, nada ser fingido no ânimo que Deus não possa efetuar... que todas as coisas do nada recedam, ou que muitos mundos subitamente existam do nada, mas também muito maiores estão situadas na potestade dele.

[12] Como Deus seja onipotente, contudo não pode pecar, ou falhar. Embora Deus tudo possa, não pode mentir, falhar ou pecar. Pois estas coisas caem naquela natureza cuja ação é imperfeita... por isso mesmo se diz não poder estas coisas, porque poder é de enfermidade, não da suma e infinita potestade que ele tem.

[13] Por que apenas da Onipotência se faça menção no Símbolo; e quais as utilidades. Pois, quando reconhecemos a Deus onipotente, é necessário que simultaneamente confessemos que ele tem a ciência de todas as coisas e que estão sujeitas ao seu império... Nenhuma coisa tem tanto valor para confirmar a nossa fé e esperança. Que se deva esperar algo de bom, nunca o ânimo se quebra pela magnitude da coisa... O Senhor ensinou: “Se tiverdes fé como o grão de mostarda... nada vos será impossível”32. Esta fé nos institui para toda a modéstia e humildade... para conhecer e celebrar os imensos benefícios de Deus.

[14] A voz da onipotência é comum ao Filho e ao Espírito Santo. O fato de chamarmos o Pai de onipotente não significa que esse nome não seja comum ao Filho e ao Espírito. Assim confessamos ser igualmente onipotente o Pai, o Filho, e o Espírito Santo; e, contudo, não três onipotentes, mas um só onipotente.


31) Gn 17, 1.
32) Mt 17, 19.

15 a 23. Criador do Céu e da Terra (e todas as naturezas criadas)

[15] De que pacto, e por qual causa Deus criou o céu e a terra. Criador do céu e da terra. O milagre de tamanha obra é crido mais facilmente pelo fato de que não se deixa nenhum lugar para duvidar da imensa potestade do Criador. Deus não fabricou o mundo de alguma matéria, mas o criou do nada, de sua própria e espontânea vontade... para repartir a sua bondade. “Pois ele mesmo disse, e foram feitas; ele mandou, e foram criadas”33.

[16] O que se deve inteligir por céu e terra. Tudo aquilo que o céu e a terra contêm. Além dos céus34, adicionou também o esplendor do sol, e o ornamento da lua e dos astros, para que existissem como sinais, tempos, dias e anos.

[17] Sobre a criação dos céus espirituais (os Anjos). Além disso, criou do nada a natureza espiritual e inumeráveis Anjos para que ministrassem e assistissem a Deus... É persícuo que o diabo e os demais Anjos desertores foram no início dotados de graça... Mas defecionaram e, deturbados, pagam as penas eternas de sua soberba.35

[18] Da criação da terra. Deus ordenou que a terra consistisse no meio do mundo36. Pôs um termo nas águas e a revestiu de árvores, ervas, flores e inumeráveis seres animados.

[19] Da criação do homem. Do limo da terra plasmou o homem37... formou a alma à sua imagem, atribuiu-lhe o livre arbítrio, adicionou o dom da justiça original, e quis que presidisse sobre os demais seres animados.

[20] Céu e terra compreendem coisas visíveis e invisíveis. O Profeta compreendeu: “Teus são os céus, e tua é a terra...”38 E os Padres do Concílio de Niceia significaram com as palavras: visíveis e invisíveis.39

[21] As coisas não podem subsistir sem a providência de Deus. As coisas fundadas por ele não poderiam constar sem a sua infinita virtude. A não ser que às coisas assistisse a sua perpétua providência, logo recairiam ao nada.40

[22] Deus não reverte a força das causas secundárias. Deus não apenas protege as coisas, mas as impulsiona com íntima virtude ao movimento de tal modo que, conquanto não impeça a eficiência das causas secundárias, as previne [sustenta]. O Apóstolo: “Não está longe de cada um de nós: pois nele vivemos, e nos movemos, e somos”41.

[23] A criação não deve ser atribuída unicamente ao Pai. A obra da criação é comum a todas as Pessoas da santa e indivídua Trindade. Pois lemos sobre o Filho: “Todas as coisas foram feitas por ele”42; e sobre o Espírito Santo: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”43.


33) Sl 148, 5.
34) Sl 8, 4.
35) 2Pd 2, 4.
36) Sl 103, 5.
37) Gn 1, 26.
38) Sl 88, 12.
39) Símbolos Niceno e Constantinopolitano.
40) Sb 11, 26.
41) At 17, 27-28.
42) Jo 1, 3.
43) Gn 1, 2.

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