São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Capítulo Terceiro - Artigo II — E em Jesus Cristo, um só seu Filho, Nosso Senhor

I. A importância deste Artigo se deduz:

[1] Em crer e professar o presente Artigo, encontra o gênero humano imensas e admiráveis vantagens, consoante o testemunho de São João: “Quem confessa que Jesus Cristo é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele permanece em Deus”.167 Prova-o também a palavra de Cristo Nosso Senhor, quando proclamava a bem-aventurança do Príncipe dos Apóstolos: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas168, pois não foi a carne nem o sangue que te revelou, mas antes Meu Pai que está nos céus”.169 Realmente, esta fé e esta profissão constituem a base mais sólida para nosso resgate e salvação.


162) (Da seção anterior) Sb 8, 1; Dz 254 1702. — 163) At 17, 27 ss. — 164) Jo 1, 3. — 165) Gn 1, 2. — 166) Sl 32, 6. — 167) 1Jo 4, 15. — 168) Bar-Jona quer dizer Filho de João. — 169) Mt 16, 17.

1. Da desgraça do homem decaído

[2] Os admiráveis frutos deste Artigo aparecem com maior evidência, se considerarmos como se destruiu o venturoso estado em que Deus colocara os primeiros homens. O pároco fará, pois, todo o possível, para que os fiéis reconheçam nisso a causa das misérias e desgraças que todos nós padecemos. Adão apartou-se da obediência devida a Deus, quando violou a proibição: “De todas as árvores do Paraíso poderás comer, mas não comas da árvore da ciência do bem e do mal. No dia que dela comeres, morrerás de morte”.170 Ele caiu logo no maior dos infortúnios, perdendo a santidade e justiça em que fora constituído, ficando sujeito a outros males, conforme ensina mais longamente o Santo Concílio de Trento.171 De outro lado, o pároco fará ainda ver que o pecado e seu castigo não se detiveram só na pessoa de Adão; mas que de Adão, como sua fonte e origem, passaram merecidamente para toda a sua posteridade.172


170) Gn 2, 16-17. — 171) Conc. Trid. Sess. V can. 1-6; sess. VI can. 1-2 (Dz 174 188). — 172) Rm 5, 12; Dz 175 316 711 1734 1627 1670.

2. Da única possibilidade de redenção

[3] Uma vez decaído de tão alta dignidade, nada podia levantar o gênero humano e reintegrá-lo no estado primitivo, nem as forças humanas, nem as forças angélicas. Em vista de tal ruína e desgraça, não restava, pois, outro remédio, senão o infinito poder com que o Filho de Deus, assumindo a fraqueza de nossa carne, devia destruir a infinita malícia do pecado, e pelo seu Sangue reconciliar-nos com Deus.

3. Da promessa de redenção

a) No Paraíso: [4] Ora, o crer na Redenção e o professá-la sempre foram condições necessárias para a salvação dos homens. Assim Deus o ensinou, desde o início da Revelação. No mesmo instante que condenava o gênero humano, imediatamente após o pecado, Deus fez nascer a esperança de resgate, pelas [próprias] palavras com que anunciou ao demônio a dura derrota que lhe resultaria da libertação dos homens: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça e a sua descendência. Esmagará ela a tua cabeça, e tu armarás traições ao seu calcanhar”.173

b) A Abraão: Mais tarde, Deus confirmou por muitas vezes a mesma promessa. Fez revelações mais positivas de Seus desígnios... Entre outros, o patriarca Abraão recebeu frequentes indicações a respeito deste mistério.174 Na hora, porém, em que ia imolar Isaac, seu filho único, por obediência a Deus, Abraão veio a ter revelações mais explícitas. Deus, com efeito, lhe dissera: “Porque assim procedeste, a ponto de não poupar teu filho único, Eu te abençoarei, e multiplicarei tua descendência como as estrelas do céu, e como a areia que jaz nas praias do mar. Tua geração possuirá as portas175 de teus inimigos, e em tua raça serão abençoados todos os povos da terra, porque obedeceste à minha voz”.176

c) A Jacó: Pouco tempo depois, para que se conservasse a recordação da promessa, o Senhor reafirmou a mesma aliança com Jacó, neto de Abraão. Na ocasião de ver, durante o sono, uma escada firmada na terra, mas com a ponta a tocar o céu... Jacó ouviu ao mesmo tempo a voz do Senhor que, apoiado na escada, lhe dizia: “Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, e Deus de Isaac. Dar-te-ei, a ti e a tua posteridade, a terra em que estás dormindo... Em ti e na tua geração serão abençoadas todas as tribos da terra”.177

d) Aos Profetas em geral: Os Profetas, cujo espírito era aclarado por uma luz celestial, falavam diante do povo, e anunciavam-lhe o nascimento do Filho de Deus, as obras admiráveis que havia de praticar depois da Sua Encarnação, Sua doutrina, Seus costumes, Seu trato, Sua Morte e ressurreição, e os outros mistérios.179 Falavam com tanta clareza de todos estes fatos, como se os tivessem presentes à própria vista.


173) Gn 3, 15; Dz 2123. — 174) Gn 12, 3; 17, 15-16; 18, 18. — 175) ... as cidades. — 176) Gn 22, 16-17. — 177) Gn 28, 12-14. — 178) Por exemplo, a estrela de Jacob (Num 24, 17; Mt 2, 2; Dz 711). — 179) Por exemplo, Isaías (7, 44; 8, 3; 9, 6; 11, 13; 53 per totum), Jeremias (23, 5; 30, 9), Daniel (7, 13; 9, 24), e outros.

II. O nome de Jesus

[5] 1. Origem: Jesus é o nome próprio d’Aquele que é Deus e homem ao mesmo tempo. Significa “Salvador”. Não Lhe foi posto casualmente, por escolha e vontade dos homens, mas por ordem e intenção de Deus. Assim o declarou o Anjo Gabriel a Maria, Sua Mãe: “Eis que conceberás em teu seio, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus”.180 E depois ordenou a José, esposo da Virgem: “Portanto, ela há de dar à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque Ele há de remir Seu povo de seus pecados”.181

[6] Corolário: Os homônimos no Antigo Testamento: Verdade é que, nas Escrituras, se nos deparam muitas pessoas com esse mesmo nome. Assim se chamava o filho de Navé182 que sucedeu a Moisés... Assim se chamava também o filho de Josedec, sumo-sacerdote.183

2. Justeza desse nome: A nosso ver, com quanto mais acerto não se deve atribuir esse nome a Nosso Salvador! A Ele que deu luzes, liberdade e salvação, já não a um povo singular, mas a todos os homens de todas as épocas. A Ele que os livrou... das sombras da morte em que estavam sentados184, presos com os duríssimos grilhões do pecado e do demônio. Naquelas pessoas185 não vemos senão uma figura de Cristo Nosso Senhor.

3. Seu aspecto total: Além do mais, todos os outros nomes que, segundo as profecias, deviam ser dados ao Filho de Deus, estão já incluídos nesse único nome de “Jesus”... que abrange, por si só, o resgate do gênero humano, em toda a sua extensão e eficácia.186


180) Lc 1, 31. — 181) Mt 1, 20-21. — 182) Josué ou Jésus, cfr. Sr 46, 1. — 183) Sr 49, 14; Ag 1, 1. — 184) Lc 1, 79. — 185) ... isto é, nos homônimos de Jesus no Antigo Testamento. — 186) Is 7, 14; 8, 8; 9, 6; Jr 23, 6.

III. Significação de "Cristo"

[7] 1. No Velho Testamento designa a) reis, sacerdotes: Ao nome de Jesus também se acrescentou o apelido de “Cristo”, cuja significação é “Ungido”. Na antiguidade, nossos pais chamavam de “cristos” aos sacerdotes e aos reis... Sacerdotes são aqueles que, por meio de assíduas preces, recomendam o povo a Deus.187 Aos reis, porém, está confiado o governo dos povos. Por isso, os que eram eleitos para a dignidade real ou sacerdotal, recebiam a unção do óleo santo.188 b) profetas: Era também costume ungirem-se os Profetas.

2. No Novo Testamento: O Redentor foi ungido pelo Espírito Santo... É o que muito bem exprime o Profeta, quando interpela o próprio Redentor: “Vós amastes a justiça, e aborrecestes a iniquidade. Por isso Deus, o vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria na presença de vossos companheiros”.189 A mesma ideia, Isaías a exprime: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me ungiu, e Me enviou para pregar aos que são mansos”.190

a) como sumo profeta: Jesus Cristo foi, portanto, o Profeta e Mestre supremo que nos ensinou a vontade de Deus...191

b) eterno sacerdote: Cristo foi também Sacerdote, não na ordem pela qual na Antiga Lei os sacerdotes procediam da tribo de Levi, mas por aquela que o profeta Davi exaltou: “Vós sois sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec”.192 Na epístola aos Hebreus, o Apóstolo explana detidamente o fundo desta passagem.193

c) rei universal: Reconhecemos, igualmente, que Cristo é Rei, não só como Deus, mas também enquanto Homem. Disse o Anjo: “Há de reinar eternamente na casa de Jacó, e Seu reino não terá fim”.194 Esse Reino de Cristo é espiritual e eterno. Nos limites deste Reino, existem bons e maus. Este Reino, porém, não Lhe foi adjudicado por direito de herança ou sucessão humana... E Cristo já começou a dominar, mas só no dia do Juízo é que todas as coisas se curvarão plena e incondicionalmente, à Sua autoridade.195


187) Nm 16, 46-50; Sb 18, 20-25; Hb 5, 1-4. — 188) 1Sm 10, 1; 16, 13; Ex 19, 21; 30, 30. — 189) Sl 44, 8. — 190) Is 61, 1. — 191) Dt 18, 15: Dz 1789. — 192) Sl 109, 4. — 193) Hb 5, 5 ss.; Dz 122 430 938 940 2195. — 194) Lc 1, 32. — 195) Dz 627, 629, 838; Litt. Encycl. "Quas primas" de Principatu Christi 11-XII-1925.

IV. Um só Seu Filho (Jesus Cristo é)

[8] São mais profundos ainda os mistérios que estas palavras nos propõem a respeito de Jesus. Levam os fiéis a crer piedosamente que é Filho de Deus, e verdadeiro Deus como o Pai.

1. Filho de Deus, a) de igual natureza como as outras pessoas: Confessamos que é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, perfeitamente igual às duas outras Pessoas Divinas. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”.196

b) gerado desde toda a eternidade: O ato pelo qual o Pai gera ao Filho desde toda a eternidade, não o podemos absolutamente perceber com a inteligência... Cumpre-nos exclamar com o Profeta: “Quem poderá explicar a Sua geração?”197

c) consubstancial ao Pai: Deve crer-se, portanto, que o Filho tem a mesma natureza, o mesmo poder, a mesma sabedoria que o Pai... “gerado, não feito, da mesma substância que o Pai, e pelo qual foram feitas todas as coisas”.198

[9] Corolário: Comparações: De todas as comparações... nenhuma parece tão próxima da realidade, como aquela que se tira da formação do pensamento em nossa alma. Por isso, São João dá o nome de “Verbo” ao Filho de Deus.199 Como nossa alma, reconhecendo-se, concebe uma imagem de si mesma (que os teólogos chamam de “verbo”)200, assim Deus, reconhecendo-Se a Si mesmo, gera o Verbo Eterno.

2. Filho do Homem (união hipostática): Como Deus, foi gerado pelo Pai antes de todos os séculos; como Homem, nasceu no tempo, de Sua Mãe a Virgem Maria.201 É pois uma e a mesma Pessoa, na qual se unem as naturezas divina e humana.

[10] 3. Nosso Criador, e nosso Irmão: Da parte da geração divina, Cristo não tem irmãos nem co-herdeiros, visto ser Ele o Filho Único do Pai, enquanto nós homens somos apenas uma formação e obra de Suas mãos.202 Se entanto considerarmos Sua origem humana203, veremos que Cristo não só dá a muitos o nome de “irmãos”, mas também os trata realmente como tais... São aqueles que pela fé receberam a Cristo Nosso Senhor204, e por obras de caridade comprovam a fé. Eis por que o Apóstolo Lhe chamou o “Primogênito entre muitos irmãos”.205


196) Jo 1, 1; Dz 344. — 197) Is 53, 8; Dz 462 2027. — 198) Tauchnitz funde o presente parágrafo com o seguinte... — 199) Jo 1, 1 ss.; Dz 118. — 200) ... verbum mentis. — 201) SQ Dz 257 285 422 708 993. — 202) Is 64, 8. — 203) Hb 2, 12. — 204) Lc 8, 21; Jo 1, 12-13. — 205) Rm 8, 29.

V. Nosso Senhor

[11] 1. Jesus, nosso “Senhor”: Entre as muitas afirmações da Sagrada Escritura a respeito de Nosso Salvador, não é difícil reconhecer que umas Lhe convêm como a Deus, outras como a Homem... Mas existem ainda outros atributos que convêm a ambas as naturezas, como o nome de “Nosso Senhor”, que ora Lhe damos.

a) Como Deus: Do mesmo modo que Ele é Deus eterno como o Pai, assim é também, como o Pai, Senhor de todas as coisas. Como Ele e o Pai não são dois deuses diversos... assim também Ele e o Pai não são dois Senhores diferentes.206

b) Como Homem... por causa da Redenção: Com razão é chamado “Nosso Senhor” também em Sua condição de Homem... É o que nos ensina o Apóstolo: “Humilhou-se a Si mesmo, fazendo-Se obediente até a morte, e morte de cruz. Por essa razão, Deus também O exaltou e Lhe deu um nome que fica acima de todos os nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho, dos que estão no céu, na terra, e nos infernos; e toda língua proclame que Jesus Cristo está na glória de Deus Pai”.207 Após a Ressurreição, Cristo disse: “A Mim foi dado todo o poder no céu e na terra”.208

Em segundo lugar, é chamado “Senhor” também, por causa da união hipostática porque reúne numa só Pessoa duas naturezas, a divina e a humana. Ainda que Cristo por nós não morrera, contudo essa admirável união Lhe teria merecido o título de soberano Senhor de todas as coisas criadas.

[12] 2. Nós somos Seus escravos pelo compromisso batismal: O pároco inculcará aos fiéis que, levando nós de Cristo o nome de cristãos... Convém que nós – com maior obrigação que os outros mortais – para sempre façamos entrega e consagração de nós mesmos a Nosso Senhor e Redentor, na qualidade de escravos totalmente Seus. Na verdade, assim o prometemos à porta da igreja, quando recebíamos a iniciação do Batismo.

Mas Cristo nos chama de "amigos e irmãos": Em vista de tanto amor e benignidade para conosco... Apesar de nos ter debaixo de Seu poder e domínio, servos que somos remidos pelo Seu sangue, Cristo nos ama com tais extremos que já não nos chama de servos, mas de amigos e irmãos.209 Esta é, sem dúvida, a mais justa, e talvez a mais forte de todas as razões, por que devemos para todo o sempre reconhecê-l’O, venerá-l’O e servi-l’O como Nosso Senhor.


206) Dz 72 148 258 262 288 290 780 1463; SQ. — 207) Fl 2, 8 ss. — 208) Mt 28, 18. — 209) Jo 15, 14-15.

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