Capítulo Nono - Artigo VIII — Creio no Espírito Santo
I. Sentido e importância do Artigo
[1] Com o vagar que exigia a natureza do assunto, expusemos até agora as verdades referentes à Primeira e à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Atualmente, resta ainda explicar o que no Símbolo se contém a respeito da Terceira Pessoa, que é o Espírito Santo. Na explicação desta matéria, devem os pastores esforçar-se com todo o interesse.
Necessidade de conhecer o Espírito Santo: Por isso, o Apóstolo não tolerou que alguns dos Efésios ignorassem a Pessoa do Espírito Santo... “Em que Batismo, pois, fostes vós batizados?”419 Com tais palavras, deu a entender a absoluta necessidade de terem os fiéis uma noção clara do presente Artigo.
Fruto desse conhecimento: Quando os cristãos meditam seriamente que, por mercê e dádiva do Espírito Santo, receberam tudo quanto possuem420, o primeiro fruto de tal conhecimento é começarem a ter de si mesmos uma opinião mais modesta e humilde, e a pôr toda a sua esperança no auxílio de Deus.
417-418) (Das seções anteriores) Aug. sermo 120; Sr 7, 40. — 419) At 19, 2 ss. — 420) 1Cor 12, 3-4.
II. A Pessoa do Espírito Santo — Explicação verbal
[2] 1. Nome: a) Significação: A exposição do Artigo deve começar pelo sentido que, neste lugar, se dá ao termo “Espírito Santo”. Com toda a propriedade, é atribuído o mesmo nome ao Pai e ao Filho, pois que ambos são “Espírito”421 e “Santo”422. Além disso, aplicamos a mesma designação aos Anjos423 e às almas dos justos.424 Portanto, é preciso atender que o povo não caia em erro, pela ambiguidade de expressão. Devemos ensinar que o nome indica a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
b) Testemunhos bíblicos: “E não tireis de mim o Vosso Espírito Santo!”425 “Quem conhecerá os Vossos desígnios... se lhe não enviardes o Vosso Santo Espírito?”426 Em o Novo Testamento, recebemos ordem de sermos batizados “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.428
[3] c) Nome comum: Ninguém deve estranhar que à Terceira Pessoa se não conferisse nome próprio... A Segunda Pessoa chama-se Filho porque Sua eterna origem do Pai se diz propriamente “geração”. Como não se pôs designação particular à origem da Terceira Pessoa, mas veio a chamar-se sopro ou processão, segue-se que a Pessoa não leva nome próprio.
Motivo de não haver nome próprio: Porque somos obrigados a tirar das coisas criadas os nomes que se atribuem a Deus. Ora, nas criaturas não conhecemos outra maneira de comunicar natureza senão a que se opera em virtude de geração. Daí nos falta a possibilidade de exprimir em termo adequado como Deus Se comunica inteiramente a Si próprio pela força do amor. Apesar disso, reconhecemos que o nome Lhe vai com propriedade; porque é o Espírito Santo que nos infunde a vida espiritual.
421) Jo 4, 24; 2Cor 3, 17. — 422) Is 6, 3; Ap 4, 8. — 423) Sl 103, 4; Hb 1, 7. — 424) Sl 145, 4; Ecl 12, 7. — 425) Sl 50, 13. — 426) Sb 9, 17. — 427) Ecl 1, 9. — 428) Mt 28, 19. — 429) Lc 1, 35; Mt 1, 18-20. — 430) Jo 1, 29 ss.
III. Verdadeiro Deus... igual ao Pai e ao Filho
[4] Dada a explicação dos termos, deve o povo aprender que o Espírito Santo é Deus, como o Pai e o Filho, igual a Eles, da mesma onipotência, de suma bondade, de infinita sabedoria, da mesma natureza que a do Pai e do Filho. Esta igualdade é bem expressa pela partícula “em”, quando dizemos: “Creio no Espírito Santo”. Colocamo-la junto ao nome de cada Pessoa para exprimir a extensão de nossa fé.431
Provas da Escritura: a) Atos dos Apóstolos: São Pedro disse: “Ananias, por que tentou Satanás o teu coração para mentires ao Espírito Santo? Não mentiste aos homens, mas a Deus”.432 b) São Paulo: “Mas, todas estas coisas são obras de um só e mesmo Espírito, que as distribui a cada um”.433
c) Isaías: Isaías havia declarado: “Ouvi a voz do Senhor que dizia...”434 O Apóstolo cita estas palavras e comenta: “Bem falou o Espírito Santo pela boca do profeta Isaías”.435 d) A fórmula do Batismo: A Escritura põe na mesma plana a pessoa do Espírito Santo com o Pai e o Filho, quando ordena empregar no Batismo o nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.436
e) São João (Doxologia litúrgica): “Três são os que no céu dão testemunho: o Pai, o Filho, e o Espírito Santo, e estes três são um só”.438 A aclamação que remata o Ofício: “Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo”.439 f) Aplicação de atributos divinos: “Ignoras, talvez, que vossos membros são templos do Espírito Santo?”440 Atribuem-Lhe as operações de santificar441, vivificar442, penetrar os arcanos de Deus443.
431) Explicação mais ampla CRO I X 20. — 432) At 5, 3-4; Dz 39 58 ss. — 433) 1Cor 12, 6-11. — 434) Citação contraída de Is 6, 8 a 6, 10. — 435) At 28, 25. — 436) Mt 28, 19. — 437) 1Cor 1, 13. — 438) 1Jo 5, 7. É o mui falado "Comma Ioanneum". — 439) Doxologia litúrgica do século V. — 440) 1Cor 6, 19. — 441) 2Ts 2, 12. — 442) Jo 6, 64. — 443) 1Cor 2, 10. — 444) 2Pd 1, 21. — 445) Sl 138, 7.
IV. Terceira Pessoa da SS. Trindade
[5] Com a devida atenção, é preciso ainda explicar aos fiéis que o Espírito Santo é Deus, mas que devemos confessá-l’O como Terceira Pessoa, distinta do Pai e do Filho, dentro da natureza divina. A fórmula de Batismo e a saudação de Paulo: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a caridade de Deus, e a comunhão do Espírito Santo...”446
A Doutrina de Niceia Constantinopla a) O “Senhor”: Prova de maior evidência é o acréscimo que fizeram os Padres do Primeiro Concílio de Constantinopla447: “E [Creio] no Espírito Santo, [que também é] Senhor, e dá vida...” Ora, confessando que o Espírito Santo é Senhor, declaram-n'O infinitamente superior aos Anjos.448 b) O “Vivificador”: Chamam-Lhe assim porque a alma tira da união com Deus uma vida mais intensa do que o sustento que o corpo aufere da alma.449
[6] c) “procedente” do Pai e do Filho: Cumpre ensinar os fiéis que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho como de uma origem única, numa eterna processão. Assim o confirma a autoridade da Escritura e dos Concílios.450 Corolários: 1. O Espírito de Cristo: Jesus disse: “Ele Me glorificará, porque há de tomar do que é Meu”.451 Nas Escrituras, o Espírito Santo é chamado ora “Espírito de Cristo”452, ora “Espírito do Pai”.453 2. O Espírito do Pai: No Evangelho de São Mateus: “Não sois vós quem fala, mas o Espírito de vosso Pai”.458 Ora, tal linguagem se refere à processão do Espírito Santo; mostra, pois, que o Mesmo procede de ambos, [Pai e Filho].
446) 2Cor 13, 13. — 447) Convocado em 381. — 448) Hb 1, 14. — 449) Rm 8, 9 ss.; Dz 799 800. — 450) Conc. Toletanum XI; Conc. Lugdun. II; Conc. Florent.; Conc. Trid. — 451) Jo 16, 14. — 452) At 16, 7. — 453) Rm 8, 9; At 8, 39. — 454) At 2, 17 ss. — 455) Jo 15, 26; 16, 7. — 456) Rm 8, 9. — 457) Gl 4, 6. — 458) Mt 10, 20. — 459) Jo 15, 26. — 460) Jo 14, 26.
V. Efeitos do Espírito Santo
[7] 1. Operações em geral: É preciso ainda ensinar que existem certos efeitos sublimes e certos dons preciosos que são próprios do Espírito Santo, e d'Ele nascem como de uma fonte inexaurível de bondade. Ainda que as operações exteriores da Santíssima Trindade sejam comuns às três Pessoas, muitas delas se atribuem de modo particular ao Espírito Santo, para entendermos que partem do infinito amor de Deus para conosco. Se o Apóstolo pergunta: “Que temos nós, que de Deus não tenhamos recebido?”461 – todos eles nos foram concedidos por mercê e graça do Espírito Santo.
[8] 2. Operações em particular: a) Vivificação espiritual e b) Distribuição de dons: Ao Espírito Santo se atribui de modo peculiar a vivificação: “Dar-vos-ei o Espírito, e vós vivereis”.462 Os efeitos principais são enumerados por Isaías: “O Espírito de sabedoria e inteligência, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de ciência e de piedade, e o Espírito do temor de Deus”.463
Corolário: Advertência de Santo Agostinho: Quando ocorre nas Escrituras o nome de “Espírito Santo”, é com muita prudência que Santo Agostinho464 nos manda averiguar se designa a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade ou apenas Seus dons e operações. Estes dois sentidos diferem tanto entre si quanto cremos que o Criador difere das coisas criadas.
c) Infusão da graça santificante: Pelos dons do Espírito Santo chegamos a conhecer as normas da vida cristã, e por eles podemos verificar se em nós habita o [próprio] Espírito Santo. Entre todos os dons, devemos enaltecer a graça de justificação, porquanto nos assinala com o “prometido Espírito Santo, que é o penhor de nossa herança”.465 Esta é a graça que une nossa alma a Deus. Tem por efeito que, “participando da natureza divina”466, “recebemos o nome de filhos de Deus, e o somos na realidade”.467
461) 1Cor 4, 7. — 462) Ez 37, 6; Dz 13. — 463) Is 11, 2-3. São Paulo fala dos frutos em Gl 6, 2. — 464) Aug. de Trinit. XV 19-19. — 465) Ef 1, 13-14; Conc. Trid. Sess. VI (Dz 799 800). — 466) 2Pd 1, 4. — 467) 1Jo 3, 1.