São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Capítulo Oitavo - Artigo VII — Donde há de vir julgar os vivos e os mortos

I. Significação do Artigo

[1] 1. O tríplice ministério de Cristo: Jesus Cristo honra e engrandece a Sua Igreja com três importantes ministérios: de Redentor, de Protetor e de Juiz. Pelos Artigos anteriores, já sabemos que Ele remiu o gênero humano e que Se tornou o perpétuo advogado... No presente Artigo, só resta explicar a Sua função de juiz. Cristo Nosso Senhor, naquele dia supremo, há de julgar todo o gênero humano.

[2] 2. O “Dia do Senhor”: As Sagradas Escrituras atestam que são duas as vindas do Filho de Deus. A primeira foi quando assumiu carne; a segunda será, quando vier para julgar todos os homens, na consumação dos séculos. Nas Escrituras, esta segunda vinda se chama “Dia do Senhor”391, do qual diz o Apóstolo: “O dia do Senhor há de vir como o ladrão de noite”.392 “Aquele dia, porém, e aquela hora, ninguém os conhece” – declara o próprio Salvador.393

a) sua realidade: Em prova do Juízo Final, basta citar esta passagem: “Todos nós teremos de comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba retribuição do bem ou do mal, que tiver praticado em sua vida terrena”.394 A Escritura está cheia de textos, que os párocos descobrirão em cada página.395

b) objeto de nossa esperança: Se desde o início do mundo, todos ansiavam por aquele primeiro dia... também agora devemos suspirar ardentemente pelo segundo Dia do Senhor, “aguardando a ditosa esperança e o aparecimento da glória do grande Deus”.396


391) 1Pd 3, 10; Ap 3, 26. — 392) 1Ts 5, 2; Dz 288a. — 393) Mt 24, 36. — 394) 2Cor 5, 10; Rm 14, 10. — 395) Por exemplo: 1Sm 2, 10; Sl 95, 13; Is 2, 12; Dn 7, 26; Jl 2, 1-13; Mt 13, 40; Ap 20, 11, entre outros. — 396) Tt 2, 13.

II. Explicação (Os Dois Juízos)

[3] 1. Dois Juízos...: Os párocos terão de atender às duas ocasiões em que todo homem deve comparecer na presença do Senhor.397 a) O particular: A primeira ocasião é o momento em que cada um de nós deixa este mundo; a alma é levada incontinenti ao tribunal de Deus, onde se examina tudo o que o homem jamais fez, disse e pensou. b) O universal: A segunda ocasião há de ser quando todos os homens terão de comparecer juntos... para que, na presença de todos os homens de todos os séculos, cada um venha saber a sentença que a seu respeito foi lavrada. Para os ímpios não constituirá a menor parte de suas penas; ao passo que os justos nela terão uma boa parte de sua alegria.

[4] 2. Motivos para o juízo universal: a) abrir todas as consciências: Os mortos deixam às vezes filhos que imitam os pais; parentes398 e discípulos que propagam seus exemplos. Esta circunstância deve aumentar os prêmios ou castigos dos próprios mortos.399 Tal influência não acabará senão quando romper o último dia do mundo.400

b) reabilitar os justos: Muitas vezes, os justos são lesados em sua reputação. Pede a divina justiça que possam recuperar a boa fama, que lhes fora iniquamente roubada.

c) responsabilizar também o corpo: As boas ou más ações devem atribuir-se também aos corpos, que delas foram instrumentos. Era conveniente que os corpos partilhassem com as almas dos prêmios ou suplícios... Isso não poderia efetuar-se sem a ressurreição e um julgamento universal.401

d) justificar a Providência de Deus: Como a fortuna e a desgraça não fazem escolha entre bons e maus na terra, era necessário provar que tudo é governado pela infinita justiça de Deus. O Profeta dizia: “Meus pés estiveram a ponto de vacilar... porque me enchi de zelo contra os maus, quando observava a vida bonançosa dos pecadores”.402 Por conseguinte, era preciso um Juízo Universal, para que os homens não comentassem que Deus pouco Se Lhe dá a sorte das coisas terrenas.404

e) alentar os bons e aterrar os maus: Conhecendo a justiça de Deus, os bons não viriam a desfalecer; os maus seriam arredados do mal graças ao temor dos eternos castigos. Os Anjos disseram aos Apóstolos: “Este Jesus... há de vir assim como O vistes subir ao céu”.405


397) Hb 9, 27; Dz 464 530. — 398) Traduzido por "parentes" em contraposição a filhos e discípulos. — 399) Basilius M. de vera virginitate. — 400) ...para que cada qual veja o alcance de suas responsabilidades sociais. — 401) Maior Desenvolvimento, veja-se CRO I XII 5. — 402) Sl 72, 2-3. — 403) Sl 72, 12-14. — 404) Jó 22, 14. — 405) At 1, 11.

III. O Juiz, os Sinais e as Sentenças

[5] 3. O juiz...: A Cristo Nosso Senhor foi entregue o julgamento, não só enquanto Deus, mas também enquanto Homem. “Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo... conferiu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem”.406

[6] Por que será Cristo?: Já que os julgados são homens, ser-lhes-á possível ver o juiz com os olhos corporais... Era de suma justiça que aquele Homem, que fora condenado pela mais iníqua das sentenças humanas, tomasse assento à vista de todos, para julgar todos os homens.407

[7] 4. Sinais que precedem ao juízo: As Sagradas Escrituras enumeram três principais: a pregação do Evangelho pelo mundo inteiro408, a apostasia, e o anticristo.409 Não se fará o Juízo “sem que venha antes a apostasia, e tenha aparecido o homem do pecado”.410

[8] 5. O julgamento a) sentença dos bons: As circunstâncias do Juízo poderão ser vistas em Daniel411, nos Evangelhos412 e em São Paulo.413 Cristo Nosso Senhor lançará um olhar de jubilosa complacência para os justos e lhes dirá: “Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino, que vos está preparado desde o princípio do mundo”.414

[9] b) sentença dos maus: Volvendo-se para aqueles que estarão à esquerda, lançará o rigor de Sua justiça: “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado ao demônio e seus anjos”.415

Qual não será, porém, a miséria dos condenados, uma vez que em tantas aflições não poderão jamais apartar-se da companhia dos mais perversos demônios? A condenação será justa, porque não deram de comer ao faminto, não agasalharam o peregrino, não visitaram o enfermo.


406) Jo 5, 26 ss.; Dz 40 255 287. — 407) At 10, 42. — 408) Mt 24, 14. — 409) 1Ts 2, 2. — 410) 2Ts 2, 3. — 411) Dn 7, 9. — 412) Mt 24, 1 ss.; 25, 1 ss. — 413) 1Cor 15, 52; 1Ts 2, 11; 4, 12-16. — 414) Dz 228 a 287; Mt 25, 34. — 415) Dz 40 160b; Mt 25, 41. — 416) Chrysost. in Matth. hom. 13; Aug. sermo 181; Dz 321 410.

IV. Frutos destas verdades

[10] Obrigação de pregá-las: São estas as verdades que os pastores devem muitas vezes inculcar aos ouvidos do povo cristão. Ela tem grande virtude para refrear as depravações da alma. Por esse motivo diz o Eclesiástico: “Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e não pecarás eternamente”.418

a) Para a conversão do pecador: Na verdade, dificilmente alguém se arrojará em pecados com tanta cegueira, que não seja de novo atraído pelo amor à virtude, em se lembrando que um dia dará contas a um juiz de suma justiça, não só de suas ações e palavras, mas até dos mais ocultos pensamentos.

b) Para a perseverança do justo: De sua parte, ainda que a vida lhe decorra em privações e sofrimentos, pode o justo afervorar-se cada vez mais na prática da virtude, quando se lembra daquele dia em que, após as lutas desta vida laboriosa, será aclamado vencedor e recebido na Pátria Celestial, onde Deus lhe dará o quinhão das honras eternas.

Só resta, pois, que os fiéis sejam exortados a procurarem uma santa maneira de viver, para aguardarem com maior firmeza de ânimo o grande Dia do Senhor que está próximo, e almejarem a Sua vinda com o mais vivo amor.


417-418) Sir/Eclo 7, 40.

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