São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Capítulo Quarto - Artigo III — O qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

I. Importância e sentido do Artigo

[1] Das explicações dadas no Artigo anterior, podem os fiéis deduzir como é grande e singular o benefício que Deus fez ao gênero humano, por nos livrar da escravidão do mais cruel dos tiranos. Atentando no plano e nos meios que Deus quis empregar para a nossa libertação, nada podemos conceber de mais grandioso, nem de mais brilhante. É, pois, na explanação do terceiro Artigo que o pároco irá mostrando a grandeza deste mistério.

Sentido do Artigo: Ensinará como seu sentido se resume em crermos e confessarmos que o mesmo Jesus Cristo... assumindo carne humana no seio da Virgem pela nossa salvação, não foi concebido de germe masculino210, como os outros homens, mas por obra do Espírito Santo211, acima de todas as leis da natureza, de sorte que a mesma Pessoa permaneceu Deus, qual era desde toda a eternidade, e tornou-Se então Homem, o que antes nunca tinha sido.212 O que prova claramente ser este o sentido... é a profissão de fé do Sagrado Concílio de Constantinopla.

Confirmação: Assim também o explicou São João Evangelista... Depois de ter explicado a natureza do Verbo Divino com as palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”213; – conclui por fim: “E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós”.214

[2] Modo de união entre as duas naturezas: O Verbo, que é uma Pessoa215 da natureza divina, assumiu de tal forma a natureza humana que uma e a mesma Pessoa é o “suporte”216 das natureza divina e humana. Daí resultou que... se conservaram as operações e propriedades de uma e outra natureza. Na frase de São Leão Magno, “nem a glória da natureza superior destruiu a inferior, nem a elevação da natureza inferior diminuiu a dignidade da superior”.217


209) (Da seção anterior) Jo 15, 14-15. — 210) Dz 256 422 429 993. — 211) Mt 1, 20. — 212) Jo 1, 14. — 213) Jo 1, 1. — 214) Jo 1, 14. — 215) Em latim: Hypostasis. — 216) ...hipóstase. — 217) Leo M. sermo 21, 2; Dz 288 344.

II. A Conceição de Cristo

[3] 1. É obra comum das três Pessoas: Quando dizemos que o Filho de Deus foi concebido por obra do Espírito Santo, não afirmamos que esta Pessoa... consumou sozinha o mistério da Encarnação. Ainda que só o Filho assumiu a natureza humana, nem por isso deixaram de ser autoras deste mistério todas as três Pessoas. Em geral, devemos ter como norma: Tudo o que Deus opera fora de si nas coisas criadas, é obra comum das três Pessoas.

Mas atribuída ao Espírito Santo: Apesar disso, a Sagrada Escritura costuma, das coisas que são comuns às três Pessoas, atribuir umas a esta Pessoa, outras àquela. Como o mistério da Encarnação... nos revela a singular e imensa benignidade de Deus para conosco, é por esse motivo que, de modo particular, atribuímos essa operação ao Espírito Santo.

[4] 2. Caráter da conceição: a) aspecto natural: Verifica-se, neste mistério, que alguns elementos superam a ordem da natureza, e que outros lhe são conformes. Cremos que o Corpo de Cristo se formou do sangue da Virgem Sua Mãe, e nisso reconhecemos uma operação da natureza humana.

b) aspecto sobrenatural: Mas o que ultrapassa a ordem natural... é o fato de que, no instante de consentir a bem-aventurada Virgem às palavras do Anjo, declarando: “Eis aqui a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a Vossa palavra”, – logo começou a formar-se [nela] o santíssimo Corpo de Cristo, ao qual se uniu uma alma dotada de inteligência, de sorte que, no mesmo instante, o Deus perfeito se tornou perfeito homem.218

Quanto ao corpo (obra do Espírito Santo): Ninguém pode duvidar que esta foi uma nova e admirável obra do Espírito Santo, pois segundo a ordem da natureza a alma humana não pode informar nenhum corpo, senão em certo lapso de tempo.219

Quanto à divindade (união hipostática): Tanto que a alma se uniu ao corpo, a própria Divindade se uniu também ao corpo e à alma. Por conseguinte, logo que o corpo foi formado, e simultaneamente animado, a Divindade ficou ligada tanto ao corpo como à alma.

Corolário (Maria, Mãe de Deus): Daí se segue que, no mesmo instante, Deus perfeito veio a ser perfeito homem; e que a Santíssima Virgem pode, verdadeira e propriamente, ser chamada Mãe de Deus. É o que lhe foi significado: “Eis que conceberás no teu seio, e darás à luz um Filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, e chamar-Lhe-ão Filho do Altíssimo”.220 E por este fato se realizou a profecia de Isaías: “Eis que uma Virgem conceberá, e dará à luz um Filho”.221 Assim também reconheceu Isabel: “Donde me vem esta graça de chegar a mim a Mãe do meu Senhor?”222

Quanto à alma (plenitude de dons): Assim como Seu corpo foi formado sem interferência de varão... Sua Alma recebeu, desde o primeiro instante da conceição, a mais rica abundância do Espírito Santo. Segundo o testemunho de São João223, Deus “não Lhe dá o Espírito por medida”... mas infundiu-Lhe na alma todas as graças com tanta profusão, que “de Sua plenitude todos nós recebemos”.224

[5] Corolário: Cristo não é filho adotivo: No entanto, Cristo não pode ser chamado Filho adotivo de Deus, ainda que teve aquele Espírito, pelo qual os homens conseguem a adoção de filhos.225 Sendo Ele Filho de Deus por natureza, deve crer-se que de modo algum Lhe cabe a graça de adoção, nem o título de Filho adotivo.

[6] 3. Frutos deste mistério: a) Meditá-lo com frequência: Para tirar frutos salutares, devem os fiéis recordar... É Deus Aquele que assumiu carne humana. Fez-Se Homem por uma via que nossa razão não alcança... Fez-Se Homem porque queria que nós renascêssemos como filhos de Deus. b) Não querer esquadrinhá-lo: Após atenta consideração, os fiéis devem crer e adorar, com espírito humilde. Mas não se ponham a inquiri-los e esquadrinhá-los por mera curiosidade. Tal pretensão nunca deixa de ter os seus perigos.


218) Lc 1, 38; Dz 144 422. — 219) O CRO alude à doutrina de S. Tomás... A Igreja deixa livre a discussão científica, mas segue praticamente a opinião mais segura. — 220) Lc 1, 31. — 221) Is 7, 14. — 222) Lc 1, 43. — Dz 111a 113 201-202 214 218 256 ss. 290 708 993 1462. — 223) Aqui se fala de João Batista. — 224) Jo 1, 16. — 225) Rm 8, 15; Dz 229 309 314a 344 462.

III. Nasceu de Maria Virgem

[7] 1. “Nasceu”: Esta é a segunda parte do presente Artigo... Jesus Nosso Senhor não só foi concebido por obra do Espírito Santo, mas também nasceu de Maria Virgem, e por ela foi posto neste mundo. O Anjo foi o primeiro a anunciar... “Eis que venho anunciar-vos uma grande alegria para todo o povo”. E também os cantares da milícia celeste: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade!”226 Desde aquele instante começou a cumprir-se a grandiosa promessa de Deus a Abraão, quando lhe dissera que, um dia, “todos os povos seriam abençoados em sua descendência”.227 Maria, a quem proclamamos verdadeira Mãe de Deus... descendia da estirpe real de Davi.228

[8] 2. “de Maria Virgem”: O que há de mais admirável... é o fato de nascer Ele de Sua Mãe, sem que daí resultasse a menor lesão da virgindade materna. Assim como mais tarde saiu do sepulcro fechado; assim como “entrou para junto de Seus Discípulos, apesar das portas fechadas”229; assim como... vemos os raios solares atravessarem um vidro compacto, sem o quebrar; – assim também nasceu Jesus Cristo... sem nenhum dano para a integridade materna. É, pois, com os mais justos louvores que, em Maria, enaltecemos uma virgindade perpétua e intemerata.230

[9] Maria que é a segunda Eva: De vez em quando, costuma o Apóstolo designar a Cristo como o “segundo Adão”231... Assim também podemos comparar com Eva a Virgem Mãe [de Deus]. À primeira Eva corresponde a segunda, que é Maria. Por ter dado crédito à serpente232, Eva acarretou maldição e morte. Maria acreditou nas palavras do Anjo233, e obteve que aos homens viesse bênção e vida.234 Por culpa de Eva, nascemos filhos da ira235; por Maria recebemos Jesus Cristo.236 A Eva foi dito: “Em dores darás a luz [teus] filhos”.237 Maria ficou isenta desta lei... deu à luz a Jesus, sem sofrer dor de espécie alguma.

[10] 3. Figuras deste mistério: Convinha que a Divina Providência os fizesse anunciar por meio de muitas figuras. Fala principalmente daquela porta do Santuário, que Ezequiel viu fechada238; daquela pedra que se desprendeu do monte “sem a intervenção de mãos humanas”... a qual se avolumou em grande montanha239; da “vara de Aarão, a única que deitou rebentos”240; da “sarça, que Moisés viu arder sem se consumir”.241

[11] 4. Frutos e aplicações: Como estes mistérios “foram escritos para nosso ensinamento”243, faça o pároco por incuti-los profundamente no espírito dos fiéis. a) Gratidão: ...para que a recordação de tão grande benefício os leve a render graças a Deus. b) Humildade: Que pode haver de mais útil para sofrear nosso orgulho, do que considerar como Deus Se humilha... a cujo aceno as colunas do céu vacilam e tremem de pavor.244 c) Imitação de Cristo: Nasce na indigência... em tosca manjedoura. Eis o que relata São Lucas: “...pois não havia lugar para eles na estalagem”.246 d) Consciência de nossa dignidade: Se Deus quis assumir a baixeza da carne, foi para elevar o gênero humano. Podemos gloriar-nos de que o Filho de Deus é “nossa carne e osso”.249 Não assumiu a natureza dos Anjos.250 e) Obediência à graça: Devemos cuidar para que não nos aconteça... que, já não nascendo corporalmente, não possa Ele descobrir em nossos corações um lugar, para nascer espiritualmente. f) Desejo de vida nova: ...renascer “não do sangue, nem do desejo da carne, mas de Deus”251; e “levar uma vida nova”252 como “novas criaturas”.253 g) Perfeita identificação com Cristo: Desta arte, reproduziremos em nós uma certa imagem e semelhança da Santa Conceição e do Santo Nascimento do Filho de Deus.


226) Lc 2, 10-14. — 227) Gn 22, 18. — 228) Mt 1, 1-17. — 229) Jo 20, 19. — 230) Dz 113 201 ss. 214 256 282 1314. — 231) 1Cor 15, 21-32; Rm 5, 14. — 232) Gn 3, 6; Sr 25, 33. — 233) Lc 1, 38. — 234) Ef 1, 3. — 235) Ef 2, 3. — 236) Gl 4, 4-7. — 237) Gn 3, 16. — 238) Ez 44, 2. — 239) Dn 2, 34-35. — 240) Nm 17, 8. — 241) Ex 3, 2 ss. — 242) S. Lucas. — 243) Rm 15, 4. — 244) Jó 26, 11. — 245) Ap 7, 11; Sl 96, 7. — 246) Lc 2, 6-7. — 247) Sl 49, 12. — 248) Jo 1, 11. — 249) Gn 29, 14; Dz 20 344 710 1463. — 250) Hb 2, 16. — 251) Jo 1, 13. — 252) Rm 6, 4. — 253) 2Cor 5, 17. — 254) (254-257 omissões de referências diretas no texto original, integradas no fechamento do artigo).

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