São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Capítulo Quinto - Artigo IV — Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado

I. Importância e significação deste Artigo

[1] Pela declaração de “não conhecer outra coisa senão a Jesus Cristo, e por sinal que Crucificado”258, o Apóstolo apregoa a grande necessidade de conhecermos este Artigo, e o zelo que deve ter o pároco em exortar os fiéis a meditarem, o mais possível, a Paixão de Nosso Senhor.

O pároco desvelar-se-á em explicar esta verdade com a maior clareza, para que a lembrança de tão insigne benefício comova os fiéis, e os induza a estimar259 devidamente o amor e a bondade de Deus para conosco. A primeira parte deste Artigo – da segunda se falará mais adiante – nos propõe a crer que Cristo Nosso Senhor foi crucificado, quando Pôncio Pilatos governava, em nome de Tibério César, a província da Judeia. Fora encarcerado, escarnecido, coberto de toda a sorte de opróbrios e tormentos, e finalmente arvorado no madeiro da Cruz.


254) (Da seção anterior) ...em nosso nascimento. — 255) LCR traz variante. — 256) ...da Encarnação. — 257) 1Cor 2, 7. — 258) 1Cor 2, 2. — 259) Uma variante diz "suscipiendam".

II. Realidade de sofrimento na Alma

[2] Ninguém deve supor que a parte inferior de Sua Alma ficasse talvez isenta das torturas. Uma vez que Cristo assumiu, realmente, a natureza humana, força é reconhecer que também na alma sentiu dores fortíssimas. Esta é a razão de ter dito: “Minha alma está triste, a ponto de morrer”.260

É certo que a natureza humana estava unida à Pessoa Divina, mas nem por isso deixou de sentir menos a amargura da Paixão. Era como se tal união não existisse; na Pessoa única de Cristo se conservavam as propriedades de ambas as naturezas. Por conseguinte, o que era passível e mortal, permaneceu passível e mortal; por sua vez, o que era impassível e imortal – como cremos ser a natureza divina – conservou esta sua propriedade.


260) Mt 26, 38; Dz 1339.

III. Por que indicada a época da Paixão?

[3] Neste Artigo, notamos uma certa insistência em indicar-se que Jesus Cristo sofreu durante o tempo que Pôncio Pilatos governava a Judeia. O pároco ensinará que assim se fez, porque a notícia de um fato tão importante e tão necessário seria mais acessível para todos, desde que se notificasse a época certa de sua ocorrência. Conforme se lê na Escritura, o Apóstolo São Paulo também a indicou.261 Outra razão era para que víssemos, por tais indicações, como realmente se cumpriu a predição de Nosso Salvador: “Entregá-l’O-ão aos gentios, para ser escarnecido, flagelado e crucificado”.262


261) 1Tm 6, 13. — 262) Mt 20, 19.

IV. A Escolha do Suplício (A Cruz)

[4] 1. Desígnio de Deus: Devemos também atribuir a um desígnio de Deus que Cristo, para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi “para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte”.263 Com efeito, a serpente que por uma árvore264 vencera nossos primeiros pais, foi vencida por Cristo na árvore da Cruz. O pároco, porém, advertirá os fiéis que lhes basta crer a seguinte razão: Nosso Salvador escolheu tal gênero de morte, porque [Lhe] parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Não eram os pagãos os únicos a verem no suplício da cruz a maior infâmia e vergonha; também a Lei de Moisés chama de “maldito o homem que pende do madeiro”.265

[5] 2. O mistério da Cruz: a) O fato histórico: Não deixe o pároco de narrar o fundo histórico deste Artigo, consignado pelos santos Evangelistas.266 b) Sinal de salvação: Se há o que ofereça dificuldades ao espírito humano, será sem dúvida o mistério da Cruz. c) Objeto da Providência: O Apóstolo ensina que neste mistério devemos admirar a soberana Providência de Deus, pois “aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação”.267 d) Figuras e profecias: Abel morto pela inveja do irmão268; a imolação de Isaac269; o cordeiro pascal270; a serpente de bronze271; e as predições dos Salmos de Davi272 e de Isaías.273


263) Prefácio da Santa Cruz. — 264) Gn 3, 4. — 265) Dt 21, 23; Gl 3, 13. — 266) Mt 26-27; Mc 14-15; Lc 22-23; Jo 18-19. — 267) 1Cor 1, 21. — 268) Gn 4, 3-8. — 269) Gn 22, 1-14. — 270) Ex 12. — 271) Nm 21, 4-9. — 272) Sl 21, etc. — 273) Is 53.

V. Morto e Sepultado

[6] 1. Realidade da morte de Jesus: O pároco terá de ensinar que estas palavras nos obrigam a crer que Jesus Cristo, depois de crucificado, morreu realmente, e foi sepultado... Todos os Evangelistas concordam em afirmar que “Jesus entregou o Seu espírito”.274 Ora, o homem morre quando a alma se aparta do corpo. Portanto, com o dizermos que Jesus morreu, queremos declarar que Sua Alma foi separada do Corpo. b) A Divindade permaneceu unida: Com fé inabalável confessamos que, depois de separada a Alma do Corpo, a Divindade permaneceu sempre unida, não só ao Corpo no sepulcro, como também à Alma nos infernos. c) Por que morreu?: Convinha que o Filho de Deus morresse, “a fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é, o demônio”.275

[7] 2. Caráter voluntário: O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido quando Ele mesmo decretou morrer... Profetizara Isaías: “Foi imolado, porque Ele próprio o quis”.276 E o Senhor disse: “Eu dou a Minha vida... Ninguém a tira de Mim, mas sou Eu que a dou de Mim mesmo”.277 Cristo nada fez contra a Sua vontade. Indo ao encontro de Seus inimigos, disse: “Sou Eu”.278

[8] VI. Sepultura de Jesus: 1. Motivos: A acrescentar-se esta circunstância, antes de tudo, para que ficasse acima da menor dúvida a realidade de Sua morte. E confessamos que [o próprio] Deus foi sepultado, de maneira análoga a dizermos que foi Deus quem morreu. [9] O Corpo de Cristo ficou no sepulcro perfeitamente livre de toda decomposição, conforme vaticinou o Profeta: “Não permitires que o Vosso Santo sofra corrupção”.280


274) Mt 27, 50; Mc 15, 37; Lc 23, 46; Jo 19, 30. — 275) Hb 2, 14. — 276) Is 53, 7. — 277) Jo 10, 17-18. — 278) Jo 18, 5. — 279) (omissões de notas diretas). — 280) Sl 15, 10; At 2, 27-31.

VII. Meditação da Paixão e seus Frutos

[10] 1. Quem sofre?: É Jesus Cristo, Deus e Homem ao mesmo tempo. Sofre o Criador pelas suas criaturas. Sofre o Senhor pelas Seus escravos. Quando Cristo se contorcia aos golpes, a terra tremeu e partiram-se os rochedos.284

[11] 2. Por que sofre?: Além da culpa hereditária, a causa principal são os vícios e pecados que os homens cometeram e hão de cometer. 3. Quem faz sofrer?: Os próprios pecadores foram autores e instrumentos das penas. Os cristãos pecadores que reincidem voltam a crucificar “em si mesmos o Filho de Deus”.288

[12] 4. Por quem foi entregue?: Pelo Pai e por Si mesmo. “Não poupou nem ao Seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós”.293 [13] 5. O que sofre?: Dores extremas no corpo (chibatadas, coroa de espinhos, pregos) e na alma, sem temperar com nenhum alívio o amargo cálice da Paixão.

[14] VIII. Frutos da Paixão: 1. Livra-nos do pecado lavando-nos em Seu Sangue.299 2. Livra-nos da tirania do demônio.301 3. Satisfez a pena devida pelos nossos pecados.302 4. Reconciliou-nos com o Pai. 5. Franqueou-nos a entrada para o céu.303 [15] IX. Exemplo de virtudes: Naquele padecimento descobrimos os mais brilhantes exemplos de paciência, humildade, obediência e caridade inabalável.


281) Jo 1, 1. — 282) Hb 1, 2-3. — 283) Rm 11, 36. — 284) Mt 27, 51. — 285) Lc 23, 44-45. — 286) 1Pd 2, 5. — 287) Hb 12, 3. — 288) Hb 6, 6. — 289) 1Cor 2, 8. — 290) Is 53, 8. — 291) Is 53, 6. — 292) Is 53, 10. — 293) Rm 8, 32. — 294) Lc 22, 44. — 295) Sl 2, 2. — 296) Cl 1, 24. — 297) 2Cor 7, 4. — 298) Mt 26, 39. — 299) Ap 1, 5. — 300) Cl 2, 13-14. — 301) Jo 12, 31-32. — 302) Rm 5, 10. — 303) Hb 10, 19. — 304) Nm 35, 25. — 305) Hb 9, 11. — 306) Rm 5, 19-21. — 307) Ef 5, 2. — 308) 1Pd 1, 18. — 309) Gl 3, 13. — 310) Conclusão pastoral do Artigo IV.

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