São Pedro Canísio
Parte I — O Credo

Capítulo Sexto - Artigo V — Desceu aos infernos, ao terceiro dia ressurgiu dos mortos

I. Importância e significação do Mistério

[1] Se muito importa conhecer a glória da sepultura de Jesus Cristo Nosso Senhor311, de maior alcance para o povo cristão é saber os brilhantes triunfos que Ele alcançou com a derrota do demônio, e com a tomada dos infernos.312 É disso que vamos ocupar-nos agora, juntamente com o Mistério da Ressurreição.

Significação: A primeira cláusula deste Artigo propõe-nos a crer que, após a morte de Cristo, Sua Alma desceu aos infernos, e lá ficou todo o tempo que Seu Corpo esteve no sepulcro. Com estas palavras, confessamos igualmente que a mesma Pessoa de Cristo esteve nos infernos, ao mesmo tempo em que jazia no túmulo... a Divindade nunca se apartou da alma nem do corpo.


310) (Da seção anterior) Cl 3, 1-4. — 311) Is 11, 10. — 312) Limbo.

II. Explicação verbal (O que significa infernos)

[2] 1. Sentido negativo de "infernos": Para maior evidência deste Artigo, o pároco começará por explicar em que sentido se toma aqui a palavra “infernos”. Deverá, pois, inculcar que não quer dizer sepultura, conforme alguns asseveravam, com uma impiedade igual à sua própria ignorância.

2. Sentido positivo: A expressão “infernos” designa os ocultos receptáculos em que são detidas as almas que não conseguiram a bem-aventurança do céu. Lê-se, por exemplo, numa epístola do Apóstolo: “Ao nome de Jesus, deve dobrar-se todo o joelho, no céu, na terra, e nos infernos”.313 E São Pedro: “Cristo Nosso Senhor ressuscitou, depois de vencer as dores dos infernos”.314

[3] 3. Classificação a) Inferno: Esses receptáculos são de várias categorias. Um deles é a horrenda e tenebrosa prisão, em que as almas réprobas são atormentadas num fogo eterno e inextinguível315, juntamente com os espíritos imundos. Chama-se também “geena”316 e “abismo”.317 É o inferno propriamente dito.

b) Purgatório: Há também um fogo de expiação, no qual por certo tempo se purificam as almas dos justos, até que lhes seja franqueado o acesso da Pátria Celestial, [lugar] onde nada de impuro pode entrar.318 Consoante as declarações dos Santos Concílios319, esta verdade tem por si os testemunhos da Escritura e da Tradição Apostólica. O pároco deve, pois, apregoá-la com maior desvelo, porquanto chegamos a uma época em que os homens já não suportam a sã doutrina.320

c) Limbo: Existe, afinal, um terceiro receptáculo, em que eram recolhidas as almas justas, antes da vinda de Cristo. Ali desfrutavam um suave remanso, sem nenhuma sensação de dor... Estas almas eleitas aguardavam o Salvador no seio de Abraão321; foi a elas que Cristo libertou, na descida aos infernos.


313) Fl 2, 10. — 314) At 2, 24. — 315) Mc 9, 44 ss. — 316) Mt 5, 22; 23, 15-33. — 317) Ap 9, 11; 20, 3. — 318) Ap 21, 27. — 319) Conc. Trid. Sess. XXV; Conc. Lugdunense; Conc. Florentinum. — 320) 2Tm 4, 3. — 321) Lc 16, 22-23.

III. Explicação Real (A Descida da Alma de Cristo)

[4] 1. Descida da alma de Cristo: Não se deve julgar que Cristo desceu de tal maneira aos infernos, que ali só chegasse com Seu poder e virtude... Devemos crer que a própria Alma realmente desceu aos infernos, e ali esteve presente com todas as Suas faculdades. Davi em termos peremptórios: “Não deixareis Minha alma [abandonada] no inferno”.322

[5] a) gloriosa: Mas, com descer aos infernos, Cristo nada perdeu de Seu imenso poder... Esse fato mostrou, à luz meridiana... que Cristo é Filho de Deus, conforme Ele mesmo tinha antes declarado.323

b) outra que a descida dos justos: Todos os mais desceram aos infernos na condição de cativos.324 Cristo, porém, “livre entre os mortos”325 e vitorioso, lá foi abater os demônios...326 Ora, Cristo Nosso Senhor desceu, não para sofrer alguma pena, mas para livrar os Santos e Justos e lhes aplicar os frutos de Sua Paixão.

[6] 2. Finalidade: a) libertar os justos e dar bem-aventurança: Depois destas explicações, o pároco ensinará que... queria arrebatar as presas dos demônios, livrar do cárcere os Santos Patriarcas e levá-los ao céu em Sua companhia. Sua presença teve logo por efeito derramar entre os cativos uma luz de grande fulgor e conferir-lhes a almejada felicidade que consiste na visão de Deus. Realizou então a promessa ao bom ladrão: “Hoje [ainda] estarás comigo no Paraíso”.327

Segundo as profecias: Oseias a tinha predito: “Ó morte, Eu hei de ser a tua morte; Eu hei de ser a tua ruína, ó inferno!”328 – Zacarias nestes termos: “Tu também, por causa do sangue de tua aliança, fizeste sair teus cativos do lago”.329 O Apóstolo: “Desarmou os principados e as potestades, e arrastou-os publicamente ao pelourinho”.330

Aos justos de todos os tempos (abertura do céu): Todos os justos... conseguem salvar-se unicamente pelo benefício de Sua Paixão. Por esse motivo, antes da Morte e Ressurreição de Cristo, as portas do céu não se abriram jamais a nenhum dos homens... Outra razão, afinal, por que Cristo desceu aos infernos, era a de manifestar ali Sua força e poder, para que “se curvasse a Seu nome todo joelho no céu, na terra e nos infernos”.331


322) Sl 15, 10, onde inferno quer dizer "Limbo". — 323) Jo 2, 11; 18-22. — 324) Sl 87, 5 ss. — 325) Sl 87, 6. — 326) De qual pecado? A frase original é obscura. — 327) Lc 23, 43. — 328) Os 13, 14. — 329) Zc 9, 11. — 330) Cl 2, 15. — 331) Fl 2, 10. — 332) A locução não exprime uma localização.

IV. "Ressurgiu dos mortos"

[7] Significação: O pároco deverá explicá-la com a máxima atenção: “Lembra-te de que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos!”333 Vejamos, pois, o significado: Depois que Cristo rendeu o espírito na Cruz, na sexta-feira à hora nona334, foi sepultado... No terceiro dia depois da morte, que era um domingo335, pela madrugada, Sua Alma se uniu novamente ao Corpo. Deste modo, Aquele que por três dias estivera morto, tornou à vida.

[8] a) Por virtude própria (pela união hipostática): Não devemos tomar o termo “ressurreição” só no sentido de que Cristo foi ressuscitado, mas que ressurgiu por Sua própria virtude e poder... Isto cabe unicamente ao supremo poder de Deus: “Embora fosse crucificado na fraqueza, vive, todavia pelo poder de Deus”.336 Davi predito: “Fizeram-n’O triunfar: a Sua destra e o Seu santo braço”.337 E o próprio Senhor: “Largo a Minha vida... Eu tenho o poder de largá-la, e tenho o poder de tomá-la novamente”.338 “Arrasai esse templo, e em três dias Eu o tornarei a construir”.339

Corolário: Se lemos às vezes que Cristo foi ressuscitado pelo Pai340, estas passagens devem aplicar-se a Cristo em Sua natureza humana. E devem aplicar-se à divina as passagens que dizem ter ressuscitado por Sua própria virtude.341

[9] b) Como o primeiro dos homens, de modo perfeito, sem morrer outra vez: É também um apanágio de Cristo ter sido o primeiro... O “Primogênito dentre os mortos”342, como também o “Primogênito dos mortos”.343 O Apóstolo declara: “Cristo ressurgiu dos mortos, como primícias dos que dormem”.344 Outros houveram que, antes de Cristo, foram ressuscitados, mas todos sob a única condição de morrerem novamente.345 Cristo, ao contrário: “Ressuscitado dos mortos, Cristo já não morre”.346


333) 2Tm 2, 8. — 334) Pelas três horas da tarde. — 335) O primeiro dia da semana. — 336) 2Cor 13, 4. — 337) Sl 97, 2. — 338) Jo 10, 17-18. — 339) Jo 2, 19-21. — 340) At 2, 24; Rm 8, 11. — 341) Rm 8, 34. — 342) Cl 1, 18. — 343) Ap 1, 5. — 344) 1Cor 15, 20-23. — 345) 1Rs 17, 22; 2Rs 4, 34. — 346) Rm 6, 9.

V. "ao terceiro dia" e "segundo as Escrituras"

[10] “Ao terceiro dia”: Como estivera encerrado no sepulcro pelo espaço todo de um dia natural, parte da véspera e parte do terceiro dia, podemos dizer que ressuscitou ao terceiro dia. Motivo: Para dar prova de Sua Divindade, não quis retardar até o fim do mundo. De outro lado, para crermos que era homem de verdade, e que realmente tinha morrido, não ressuscitou logo... Este intervalo [Lhe] pareceu suficiente.

[11] “Segundo as Escrituras” (A Importância da Ressurreição): Os Padres de Constantinopla puseram este acréscimo tomado do Apóstolo.347 a) para nossa fé: “Se Cristo não ressuscitou, vã é a vossa fé”.348 Santo Agostinho escreveu: “Que muito crermos que Cristo morreu? Também os pagãos, os Judeus, e todos os maus o acreditam. A fé dos cristãos é a Ressurreição”.349 b) ponto capital da pregação de Cristo: Por isso Nosso Senhor falava tão amiúde... Quase nunca Se entretinha de Sua Paixão sem discorrer acerca da Ressurreição.350 “Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do cetáceo, assim o Filho do Homem”.351

[12] 2. Provas desta asserção (Necessidade da Ressurreição): Para manifestar a justiça divina, convinha que Deus exaltasse Aquele que Se havia rebaixado.352 Para consolidar nossa fé... a maior prova de que Cristo era Filho de Deus. Para nutrir nossa esperança de que também nós havemos de ressurgir.353 São Pedro diz: “...pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, nos regenerou para uma esperança viva”.354 E para consumar a Redenção. O Apóstolo disse: “Cristo foi entregue por causa de nossos pecados, e ressuscitou por causa de nossa justificação”.355


347) 1Cor 15, 3-4. — 348) 1Cor 15, 14-17. — 349) Aug. in Ps. 120, 4. — 350) Lc 18, 32 ss.; Mt 16, 21. — 351) Mt 12, 39 ss.; Lc 11, 29. — 352) Fl 2, 8-9. — 353) 1Cor 15, 12 ss.; 1Ts 4, 12 ss. — 354) 1Pd 1, 3-4. — 355) Rm 4, 25.

VI. Frutos da Ressurreição

[13] 1. Causa: a) De nossa ressurreição corporal: A Ressurreição de Cristo acarretou também a ressurreição de nosso corpo, já por ser ela a causa eficiente desse mistério. “Por um homem entrou a morte, e por um homem veio [também] a ressurreição”.356 É o modelo [da nossa], porque a Ressurreição de Cristo é a mais perfeita de todos. “Esperamos o Salvador... que há de reformar o corpo de nossa baixeza, e torná-lo semelhante ao Seu corpo glorioso”.357

b) E espiritual: Em que sentido lhe serve de modelo? O Apóstolo: “Assim como Cristo ressurgiu... assim também nós devemos andar numa vida nova”.358 E acrescenta: “Sabemos que Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, já não morre... Sendo assim, levai em consideração que também vós morrestes para o pecado, mas que [agora] viveis para Deus em Jesus Cristo”.359

[14] 2. Seu duplo modelo: a) Vida nova e b) Perseverança: O primeiro é que devemos abraçar uma vida nova em que rebrilhe a pureza de costumes. O segundo é perseverarmos neste novo gênero de vida. A Sua Ressurreição nos dá igualmente forças para adquirirmos a justiça... e podermos ressurgir com Ele para uma nova orientação de vida.

[15] 3. Sinais desta ressurreição: a) Cristo, centro de nossa vida: Quando aconselha: “Se ressurgistes com Cristo, procurai o que está no alto”360; mostra que de fato ressuscitaram aqueles que não procuram vida, honra e repouso senão lá onde está Cristo. b) Apreço pelas coisas celestiais: Acrescentando: “Tende gosto pelas coisas que estão no alto”361; dá-nos ainda um outro sinal.362 Como o paladar indica em geral o estado de saúde, assim pode ser a prova evidente de que o homem ressuscitou, se gosta de “tudo quanto é verdadeiro, honesto, justo e santo”363, e sente no íntimo do coração a doçura das coisas celestiais.364


356) 1Cor 15, 21. — 357) Fl 3, 20. — 358) Rm 6, 4 ss. — 359) Rm 6, 9-11. — 360) Cl 3, 1. — 361) Cl 3, 2. — 362) Jo 17, 24. — 363) Fl 4, 8. — 364) Mt 6, 21.

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