Capítulo Sétimo - Artigo VI — Subiu aos céus, está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso
I e II. Importância e Explicação do Mistério
[1] Importância do Artigo: Ao contemplar a bem-aventurada Ascensão de Nosso Senhor, o profeta Davi exorta o mundo inteiro a celebrar o Seu triunfo: “Nações todas, diz ele, batei palmas, louvai a Deus em cantos de alegria! Subiu Deus no meio de aclamações”.365 O pároco verá com quanto zelo não deve expor este Mistério e tomar a peito que os fiéis não só o creiam, mas procurem traduzi-lo em todos os seus atos e sentimentos.
Explicação (1. Como homem): Os fiéis devem crer, sem a menor dúvida, que Jesus Cristo, depois de consumar o mistério de nossa Redenção, subiu aos céus enquanto Homem, com corpo e alma; enquanto Deus, nunca de lá se ausentou, pois que enche todos os lugares com Sua Divindade.
[2] 2. Por própria virtude... como Deus e como homem: Ensinará, todavia, que subiu por virtude própria. Não foi arrebatado por uma força estranha, como Elias que fora levado ao céu num carro de fogo366, nem como Habacuc367 ou o diácono Filipe.368 Entretanto, não subiu aos céus só pela virtude de Sua Onipotência, mas também em Sua condição de homem. Pela virtude de que estava munida, podia a gloriosa Alma de Cristo mover o corpo a seu grado. Tendo já a posse da glória, o corpo obedecia à direção que a alma lhe dava.
365) Sl 46, 2-6; Dz 255 344 429 462 709. — 366) 2Rs 2, 11-12. — 367) Dn 14, 35. — 368) At 8, 39.
III. "Está sentado à mão direita"
[3] 1. Necessidade da figura: Na segunda parte do Artigo estão as palavras: “Está sentado à direita de [Deus] Pai”. Esta expressão encerra uma figura de linguagem. Atribuímos a Deus afetos e membros humanos, apesar de não podermos imaginar nada de corpóreo em Deus, porque é puro espírito. Mas, como julgamos dar maior honra a quem colocamos à nossa direita, assim aplicamos também às coisas do céu. Confessamos que Cristo está à direita do Pai para exprimir a glória que alcançou acima de todas as criaturas.
2. Significação: O “estar sentado” não exprime aqui uma postura de corpo, mas põe em evidência a posse segura e inabalável do régio poder e da glória infinita que Cristo recebeu de Seu Pai.369 Disso fala o Apóstolo: “Ressuscitou-O da morte, e colocou-O à Sua direita no céu, acima de todos os principados e potestades... Pôs-Lhe aos pés todas as coisas”.370 Destas palavras inferimos que tal glória é tão particular de Nosso Senhor que não pode convir a nenhuma outra natureza criada. O Apóstolo declara: “A qual dos Anjos disse jamais: Senta-te à Minha direita?”371
369) Dz 874. — 370) Ef 1, 20 ss. — 371) Hb 1, 13; Sl 109, 1.
IV. Avisos Práticos e Motivos da Ascensão
[4] 1. Expor o histórico: Para mostrar o sentido deste Artigo, o pároco seguirá a história da Ascensão conforme São Lucas nos Atos dos Apóstolos.372 a) Em relação com os outros mistérios: Observar que todos os outros mistérios se referem à Ascensão como a um ponto final. Assim como pela Encarnação começam os mistérios, pela Ascensão termina a peregrinação. b) E sua sublimidade: Não existe expressão mais sublime para nos dar uma ideia de Sua glória suprema e divina majestade.
[5] 2. Enumerar os motivos: Depois é preciso explicar as razões por que Cristo subiu aos céus. a) Dar ao corpo uma morada gloriosa: A Seu Corpo dotado de glória imortal já não lhe convinha esta obscura morada da terra, mas a esplendorosa mansão dos céus. b) Diligenciar nossa glorificação: Para tomar posse do trono e diligenciar tudo o que diz respeito à nossa salvação. c) Mostrar que seu reino não é deste mundo: Provar que “Seu Reino não é deste mundo”.373 Colocando Seu trono nos céus, demonstrou que as forças e riquezas de Seu reino eram de natureza espiritual.374
d) Elevar ao céu nosso pensamento: Queria que continuássemos nós a segui-l’O com saudosos pensamentos... A reconhecermos que na terra somos hóspedes e peregrinos à procura da verdadeira pátria375, concidadãos dos Santos376, pois “nosso viver é no céu”.377
[6] e) Enviar-nos o Espírito Santo: Davi vaticinou: “Subindo ao alto, arrebatou consigo os escravos, e distribuiu Seus dons aos homens”.378 Ao cabo de dez dias, enviou o Espírito Santo, cumprindo a promessa: “Se Eu não for, não virá a vós o Consolador; mas, se for, Eu vo-l’O enviarei”.380
f) Ser nosso advogado: Subiu aos céus “para Se apresentar agora ante a face de Deus em favor nosso”381. São João diz: “Se alguém pecar, por advogado junto ao Pai temos a Jesus Cristo, o Justo”.382 g) Preparar-nos um lugar: Preparou-nos um lugar, conforme prometido.383 Com Sua ida, abriu as portas que se tinham fechado e levou consigo as almas dos justos que tinha arrancado dos infernos.
372) At 1, 1-11. — 373) Jo 18, 36. — 374) Tg 2, 5. — 375) Hb 11, 13. — 376) Ef 2, 19. — 377) Fl 3, 20. — 378) Sl 67, 19. — 379) Ef 4, 8. — 380) Jo 16, 7; At 1, 4-5. — 381) Hb 9, 24. — 382) 1Jo 2, 1. — 383) Jo 14, 2.
V. Frutos da Ascensão
[7] 3. Indicar os frutos imediatos: a) Aumenta-nos a fé: O mérito de nossa fé cresce até o último grau, porquanto a fé se refere a coisas inacessíveis à nossa vista. Se o Senhor não Se apartara, diminuir-se-ia o mérito, pois Ele exalta os que “não viram, mas creram”.384
b) Confirma-nos a esperança: A subida de Cristo tem a força de confirmar a esperança. Crendo que Cristo colocou Sua natureza humana à direita de Deus Pai, grande é a nossa esperança de que também nós para lá havemos de subir como membros Seus.385 O Senhor asseverou: “Pai, quero que, onde Eu estou, estejam comigo também aqueles, que Vós me destes”.386
[8] c) Espiritualiza nosso amor... e tira-lhe o caráter terreno: Cristo arrebatou consigo para o céu o nosso amor. “Nosso coração está onde estiver o nosso tesouro”.387 Permanecesse Jesus conosco na terra, O consideraríamos por um prisma muito humano. Pelo fato de ter subido aos céus, espiritualizou nosso amor; fez-nos amar e venerar como Deus. “Para vós é bom que Eu vá... Se Eu não me ausentar, não virá a vós o Consolador”.388
[9] d) Dilata a sua Igreja: Acresce que assim Nosso Senhor dilatou Sua Igreja, cujo governo devia ser dirigido pelo Espírito Santo. Deixou entre os homens a Pedro. E, sentado à direita do Pai, não cessa de distribuir dons: “A cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida com que Cristo a distribuiu”.390
4. Aplicação prática: Ao fato da Ascensão devem os fiéis aplicar os mesmos princípios que expusemos a propósito do mistério da Morte e Ressurreição. A Ascensão de Cristo se nos apresenta como um modelo que nos ensina a olhar para o alto e transportar-nos ao céu em espírito. E nos dá uma força divina que nos põe em condições de fazê-lo.
384) Jo 20, 29. — 385) Ef 4, 15; Cl 1, 18. — 386) Jo 17, 24. — 387) Mt 6, 21. — 388) Jo 16, 7. — 389) Ef 4, 11; 1Cor 12, 28 ss. — 390) Ef 4, 7.